A CORDA SEMPRE ARREBENTA PARA O LADO MAIS FRACO por Paula Batista

Você provavelmente já ouviu e já falou essa frase, principalmente nos momentos em que estava do lado mais fraco. Hoje a gente escreve este artigo para lembrar algumas pessoas que estão do lado mais fraco nessa Pandemia do COVID-19 e te dar ideias de como ajudar.


Quando abordamos este tema em algumas redes sociais as pessoas costumam dizer: “não tem lado mais fraco, estamos todos no mesmo barco”. E eu vou dizer que

o barco pode ser o mesmo, porém, algumas pessoas estão na classe executiva, outras estão na primeira classe e uma enorme parte da população está no porão desse barco.


Nós, pessoas privilegiadas que temos acesso a um plano de saúde, que trabalhamos em grandes empresas que estão liberando o home office e também nós mulheres empreendedoras, que podemos tocar nossos negócios de casa, muitas vezes acabamos nos esquecendo de um pessoal que não tem privilégio nenhum. Essas pessoas estão intrinsecamente relacionadas conosco, veja só.


A empresa autorizou home office, mas não dispensou a ultraprodutividade


Que bacana e modernona essa empresa que liberou todo mundo para trabalhar em casa! Mas aí você se viu enlouquecida com crianças, família toda, todo mundo ocupando a mesma casa, fazendo muita bagunça, muita sujeira, muito barulho e você tendo que ser produtiva.


Muitas famílias, nesse momento, optaram por pedir um help para aquela diarista super competente, que em poucas horas dá jeito em toda bagunça, cuida das crianças, faz comida e tudo com o sorrisão no rosto, ou mesmo aquela maravilhosa funcionária que nunca te deixa na mão. 


Porém, essas pessoas, muitas vezes, não possuem um plano de saúde, e as pessoas com quem elas convivem também não. Elas chegam nas casas utilizando o transporte público, meio de transporte que não há nenhuma limpeza ou higienização regular. Elas podem pegar o vírus na sua casa ou no transporte público e espalhar para outras tantas pessoas que não têm nem como fazer o teste do coronavírus.


Que tal usar do seu privilégio e dividir a tarefa da casa com as pessoas que convivem com você? Que tal dispensar essa mulher e garantir a ela o pagamento antecipado do salário para que ela não fique com medo de não receber ou de perder o emprego? Ela, provavelmente, também está com crianças, marido, familiares em casa, também sente medo, e não tem coragem de pedir para você essa dispensa... Quando a corda arrebentar, ela com certeza estará do lado mais fraco.


Dispense suas funcionárias e funcionários e garanta os salários e emprego, exija que o condomínio onde você mora diminua o número de pessoas trabalhando. Seja solidária!


O empreendedorismo de sobrevivência


Outro grupo que já está sentindo a corda estourar, faz tempo, são pessoas que trabalham para aplicativos e pessoas autônomas. Não estou falando de você, mana empreendedora. Estou falando da galera que está na informalidade e que, se não sair cedo para trabalhar, não receberá nada no fim do mês, aquelas pessoas que não podem parar. Eu fico imaginando a quantidade de motoristas de aplicativos que estão com coronavírus e não estão indo fazer o teste para não pararem. E você deve estar pensando: o que eu posso fazer por essas pessoas?


Um dos aplicativos de transporte informou que oferecerá para colaboradoras e colaboradores que forem diagnosticados com o COVID-19 assistência financeira durante até 14 dias, mas para isso essas pessoas precisam conseguir fazer o exame. Se você tiver condições, ajude as pessoas que apresentam os sintomas a cuidarem da saúde e fazerem o exame no sistema particular, já que no sistema público a realização está restrita, cobre das outras empresas um posicionamento e uma ação.


Estando próxima dessas pessoas “autônomas”, ofereça ajuda para ficar com as crianças que não estão indo para a escola, indique para a sua rede brincadeiras e atividades para fazer com as crianças em casa. 


Se o evento para o qual comprou ingresso teve a programação prorrogada, considere aceitar a prorrogação e não solicite o dinheiro de volta. Há milhares de profissionais da cultura, de feiras e outros que estão arcando com muitos prejuízos por conta dessa pandemia.


Soluções para as questões financeiras, não temos muitas, mas há um aplicativo chamado Itsnoon em que pessoas podem responder aos desafios e ganhar dinheiro. Nós, privilegiadas, podemos criar desafios ou doar dinheiro para desafios existentes. Caso você não tenha nenhum dinheiro e queira ajudar ainda assim, pode entrar no aplicativo, cultivar girassóis e doar esses girassóis para quem precisa. 


Ofereça informação de qualidade, instrua essas pessoas a manterem a higiene e a saúde mental e não entrarem em pânico se apresentarem os sintomas.

 

Compre e distribua álcool gel e sabonetes. São pequenas ações, mas podem ajudar. Olhe o seu entorno antes da corda estourar.


O que eu posso fazer por mim 


Uma pequena empreendedora que terá o seu negócio afetado pelo coronavírus pode buscar informações e ajuda de investimentos que já estão rolando para manter o seu negócio funcionando. Clique aqui e veja essas indicações do Sebrae, por exemplo. 


Mantenha a sua saúde mental. Enquanto eu escrevo esse texto (17/03/2020 às 10h45), recebemos a informação que na cidade de São Paulo aconteceu o primeiro caso de morte pelo COVID-19. Essa informação já nos deixa abaladas. Nas próximas semanas, a previsão é que os números aumentem muito e isso pode causar um pânico generalizado.

Então, é hora de criar uma nova rotina de cuidados com você e com as pessoas que estão ao seu redor como, meditação, leitura, orações, alimentação, cuidados e carinhos.

 

O que se prevê é que o período de isolamento vai aumentar, mais pessoas vão se contagiar e muitas pessoas vão morrer. Pense em como se manter sã nesse cenário e conte com a gente para conversar!

Agora, mais do que nunca, é o momento de utilizar o nosso privilégio para proteger as pessoas que não têm privilégio nenhum.

 

Agora é hora de olhar para os lados, para trás, e oferecer ajuda, compartilhar conhecimento e generosidade. É hora de ser compreensiva e entender quem é que está do lado mais fraco dessa corda!

 

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Paula Batista idealizadora do projeto CRIANDO CRIANÇAS PRETAS, é jornalista, especialista em mídia, informação e cultura e Mestre em Divulgação Científica e Cultural. Já realizou trabalhos com foco no combate ao racismo e na promoção da igualdade racial voltada ao  afroempreendedorismo, além de liderar projetos de educação corporativo e design instrucional para cursos EaD. No mestrado  dissertou sobre como dois espaços na cidade de São Paulo, autodenominados Quilombos Urbanos, comunicam cultura, memória, ancestralidade e identidade negra em seus espaços.
Ilustração Jameil Law.

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