'Deficiência e exposição na era digital' por Amanda Lyra

A era digital tem possibilitado maior autonomia e visibilidade para as pessoas com deficiência, mas vale lembrar que a interpretação de texto vale ouro. Qualquer vírgula pode mudar o rumo da conversa e uma simples dica pode virar estopim para um grande circo de horrores virtuais, que, muitas vezes, chega ao mundo real.

Quem me acompanha nas redes sociais sabe que a maior parte do que compartilho é sobre meu trabalho. Poucas vezes trago minha vida pessoal, expondo apenas coisas da minha rotina que acho que de alguma maneira podem influenciar de forma positiva outras pessoas. A rotina de alguém com uma deficiência, basicamente, é UMA ROTINA de uma PESSOA que tem uma DEFICIÊNCIA. Ou seja, se excluir a última parte da frase, é fácil perceber que a rotina é como a de qualquer pessoa: acordar, ir ao banheiro, escovar os dentes, se trocar, trabalhar, resolver pepinos do trabalho, comer, se divertir, amar, curtir as amizades e a família, achar uma forma de expressar opiniões e estilo, o que muda é a forma de fazer isso.

Nesse sentido, muitas vezes, pessoas com deficiências precisam de auxílio para trilhar certos caminhos, se reinventando diariamente para tentar novas formas de autonomia, seja pelo trabalho, pela arte ou pelos hobbies. Justamente por conta disso, têm uma percepção diferente de mundo.

Mas, no mundo digital muitas pessoas com deficiências encontraram uma forma independente de se expressar e se conectar com o mundo. Nesse espaço podem mostrar que a rotina delas é cheia de barreiras, mas que elas vencem e, quando não vencem, na internet podem se rebelar, militar, reclamar e lutar por seus direitos. Tudo isso porque nesse mundo virtual não precisamos de pernas, de braços, de olhos ou de audição, só precisamos de uma conta de e-mail para sermos iguais.

Porém, não são só alegrias. A inabilidade para interpretação de texto e a alienação gerada por esse cyberespaço abre alas para insensibilidade, para pessoas que só entendem o que lhes convém, disseminam e distorcem palavras, não entendem os contextos, não procuram fontes, mitificam seres normais, transformam-lhes em grandes heróis e compartilham tudo, como se sua vida dependesse disso.

Enfim, quando uso as redes sociais para divulgar meu trabalho, é para inspirar as pessoas pelas atitudes que eu tomo e não para sensibilizá-las pela deficiência que eu tenho. Não me sinto guerreira por estar em uma cadeira de rodas, me sinto guerreira por ser mulher brasileira, ser empresária, ser artista e saber que enfrento meus dragões da melhor forma possível, passando por dias de dores e dias de amores, como qualquer outro ser humano do planeta.

------------------------
Amanda Lyra é cantora, compositora, produtora e apresentadora, cadeirante e idealizadora do Projeto Solyra. Siga ela no FACEBOOK e INSTAGRAM.

Paloma Santos é ilustradora, cadeirante e feminista. "No meu trabalho como ilustradora tento representar a diversidade feminina". Siga ela no INSTAGRAM e curta a página no FACEBOOK.

1 comentário

SHEILA RODRIGUES MOTTA

Me representou bonito… Grata!

Deixe um comentário