pintura colorida em muro branco de uma mulher negra, com cabelos escuros, trançados. está de vestido branco comprido, sentada em nuvens, segurando a barriga com a mãe direita.

ELES COMBINARAM DE NOS MATAR por Ananda Vilela

pintura colorida em muro branco de uma mulher negra, com cabelos escuros, trançados. está de vestido branco comprido, sentada em nuvens, segurando a barriga com a mãe direita.

Mais uma pessoa negra que o Estado abandonou, que o capitalismo explorou, que o racismo matou . Mais uma família negra que o racismo desfez, não deixou viver, impediu de se construir.


Hoje faz um mês que se viveu no Rio de Janeiro mais um assassinato promovido pelas forças da polícia carioca. No dia 08 de junho de 2021, Kathlen Romeu, uma jovem de 24 anos, mulher negra, gestante, foi atingida por uma bala da polícia militar. A bala, como sabemos, não foi perdida. A bala não é perdida se encontra sempre os mesmos corpos. Como já dizia Emicida “existe pele alva e pelo alvo”.

Mais uma vida foi tirada pelo Estado brasileiro, Kathlen tinha um futuro pela frente, construindo uma família, alcançando suas conquistas, alegrando-se com a descoberta da gravidez ainda nos primeiros meses. Kathlen era a esperança de uma geração que não sofreria o mesmo que as gerações anteriores. O Estado não permitiu que Kathlen vivesse, levou uma mãe, uma filha, uma neta e uma companheira.

Por enquanto, os policiais envolvidos no assassinato de Kathlen ainda não foram responsabilizados. A polícia ainda está com o inquérito aberto e em vias de reconstituição da cena do crime, a fim de encontrar os responsáveis (Fonte: G1). No entanto, nos perguntamos: o que acontece quando a polícia investiga a polícia?

Isso não é um caso isolado, a brutalidade chama atenção para uma realidade constante na vida da população negra no Brasil: eles combinaram de nos matar. O último Atlas da Violência publicado em 2020 identificou que, em 2018, negros representaram 75,7% das vítimas de homicídios. Considerando a década entre 2008 e 2018, há um aumento de 11,5% da taxa de homicidio de pessoas negras e a diminuição de 12,9% de não negros. (Fonte: IPEA - atlas da violência)

No país, a cada 23 minutos um jovem negro é morto, uma vida é levada, uma família é desestruturada, uma mãe perde uma filha ou filho, um filho ou filha perde um pai, uma mãe. Em 2020, 12 crianças negras foram mortas no Rio de Janeiro. Entre as mulheres, as mulheres negras representam 68% das mortes. (Fonte: Labjaca)

A consolidação da família é negada a povos negros desde sua chegada às terras brasileiras. Antes, ainda durante o período colonial, as crianças eram separadas de suas mães em nome do lucro para os senhores de engenho e plantações. As mulheres eram tratadas como objetos para satisfazer os senhores ou cuidar de seus filhos. Enquanto os seus próprios filhos e maridos eram vendidos e escravizados, destroçando famílias inteiras. Atualmente, a dinâmica de fazer e deixar morrer continua a negar a essas famílias negras a sua consolidação.

Nesse caso emblemático da violência, resultado de uma sociedade pautada sobre o racismo estrutural, não só o Estado tem a sua parcela de culpa, mas também o capitalismo exerce um papel chave na manutenção do privilégio para uns e a falta de direito para outros, inclusive direito à vida, assegurado pelo Artigo 5º da Constituição Federal. O Estado e o capitalismo se mostram dois lados de uma mesma moeda: a do extermínio lucrativo. A empresa na qual Kathlen trabalhava, Farm, acionou um mecanismo para fazê-la trabalhar e lucrar para o grupo empresarial mesmo após a sua morte. A face lucrativa e genocida do racismo que impulsionou a escravização de pessoas negras e permanece mesmo após uma abolição formal que não libertou negros e negras da dominação.

Mais uma pessoa negra que o Estado abandonou, que o capitalismo explorou, que o racismo matou . Mais uma família negra que o racismo desfez, não deixou viver, impediu de se construir.

O fazer e deixar morrer representa a face necropolítica do Estado brasileiro que se esforça incessantemente para fortalecer o mito da democracia racial. Uma face brutal que busca um país branco por meio do genocídio de negros e indígenas que destoam da pretensa branquitude brasileira. O genocídio é promovido por meio da morte física e cultural. A negação da cultura e memória ancestral representa o epistemicídio contra os conhecimentos negros e indígenas. A ocultação da contribuição desses povos na edificação do Estado brasileiro falsea um país modelado a partir da Europa. As formas cruéis de dominação, exclusão e extermínio tem um objetivo principal: higienização populacional.

No entanto, essa cultura resiste, a duras penas nosso povo resiste. “A gente combinamos de não morrer” — disse Dorvi antes de morrer. Homem negro, personagem de ficção inventado por Conceição Evaristo, representa a realidade de muitos. Afinal, eles combinaram de nos matar.

 

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Ananda Vilela, mulher negra da periferia de Suzano, na Grande São Paulo. Doutoranda em Relações Internacionais pela PUC-Rio e mestre pela mesma instituição. Pesquiso raça e racismo nas Relações Internacionais e também as intersecções entre raça, gênero e classe nas relações sociais.

Foto: Tatiana Campbell / Super Rádio Tupi. Mural está localizado no Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

 

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