NÃO TEM CABIMENTO por Jéssica Balbino

Por Jéssica Balbino* 


Não caber em roupas, cadeiras, camas, poltronas, catracas, elevadores, etc, causa nos corpos – e mentes gordas – mais estragos do que o cálculo do IMC (Índice de Massa Corpórea), usado para definir se alguém é ou não doente e, por conseguinte, um risco para a saúde pública. 

Pessoas gordas, em especial mulheres gordas, sofrem diariamente com os dizeres “mas é só preocupação com a sua saúde”. Se é isso mesmo, me ajuda a pagar a parcela mensal do plano de saúde, ou paga minhas sessões de psicanálise. E que tal pagar minhas aulas de natação? Ou minha academia? E se você me fizer companhia em caminhadas pelo bairro? Que tal sair comigo para tomar um café e me ouvir falar sobre o preterimento social que sofro? 

Quantas pessoas ‘boas’ estão preocupadas com a saúde de outrem, mas, jamais, em toda a vida, doaram sangue, ou fizeram o cadastro para doação de medula óssea? Quer mesmo ajudar as pessoas? Procure a unidade de captação de sangue mais próxima. Os estoques se esvaziam rapidamente e você pode salvar vidas. Não é patrulhando o prato da pessoa gorda que você vai salvar alguém. 

Tratar o corpo de uma pessoa gorda como excesso ou exagero é uma prática absurda de desumanização. A pergunta que devemos nos fazer é: por quê? Por que tentam desumanizar nossos corpos gordos? Por que eles incomodam tanto? Por que a insistência em tratar como uma epidemia ou um caso grave de saúde? 

É sabido que não existe nenhuma doença que atinja apenas pessoas gordas. Todos os dados sobre colesterol, pressão alta e diabetes são contestáveis. Mas posso afirmar, sem excesso, que a gordofobia existe e afeta todas as pessoas gordas. 

A gordofobia é limitante, ela impede que a pessoa conviva em sociedade e obriga o isolamento, com isso vem a depressão, e a tal preocupação tão excessiva com a saúde dá lugar a inúmeros problemas de autoestima, autoaceitação e autoconfiança. Mas, quem se importa? Se a pessoa gorda estiver isolada, chorando numa cama, tudo bem, o que ela não pode é estar plena, viva e radiante na sociedade, ocupando espaços com seu corpo gordo. Aí não dá. N-Ã-O T-E-M  C-A-B-I-M-E-N-T-O. 

Não tem cabimento que a pessoa gorda queira ser livre. Por isso, pessoas magras precisam, o tempo todo, lembra-la o quanto ela é "doente" por estar "acima" do peso considerado ideal pela sociedade. Não importa o quanto a pessoa gorda seja ativa, pratique esportes, coma bem, trabalhe duro e seja legal. Ela é gorda e é importante reforçar os estereótipos, assim como o mal estar dela. 

Não importa que a pessoa magra não esteja saudável. Ela é magra, logo, aparenta estar. Não importa o que ela come, as drogas que eventualmente usa, ou o quanto lhe custa o corpo magro. Ela cabe. Cabe nas roupas, nas catracas e nos bancos. Cabe no pensamento, na fragilidade social, no estereótipo prescrito. 

Pessoas magras cabem e tem passabilidade social. Pessoas gordas são lidas como doentes e não importa quanto de saúde efetivamente tenham: o mundo é programado para que elas não caibam. E, não tendo cabimento, não podem existir, tampouco lutar. 

Este não é um texto feliz. Ele propõe uma reflexão: estamos nos preocupando com o tamanho, com o quanto as coisas cabem, por quê? A quem serve esse cabimento? 

Meu desejo é que possamos nos esparramar, nos esbaldar, sair pelas bordas, não caber, derramar nosso corpo, nosso tamanho, nossos sonhos e nossas vidas. Meu desejo é que a gente, mais do que lutar, possa, um dia, ao menos um dia, descansar. Tem cabimento?

 

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Jéssica Balbino é o tipo de mulher elétrica, que mistura jornalismo, produção cultural e literatura com pimenta, cafeína, fósforo e gasolina.

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Marie Boiseau é ilustradora e se inspira em mulheres, cores e formas da natureza, sexualidade, pequenas coisas da vida cotidiana.

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4 comentários

Maya Sangawa

Texto maravilhoso! “Pessoas magras cabem e têm passabilidade social”. A humilhação diária e reiterada destrói qualquer autoestima que a gente tenta construir.

Ligia

Não, não tem cabimento vestirmos a camisa da hipocrisia. Num país onde o próprio Presidente veste a camisa de atleta de meia tigela, num momento em que muitas pessoas continuam saindo de casa e desafiando a quarentena, simplesmente porque não são idosos, num lugar onde todos os manequins, imagens, estereótipos tem medida certa, feito pedra de gelo. Sim, você falou tudo, querida, e o que me mata é sabermos que estamos mesmo engessados nessa camisa de força hipócrita, aristocrata e misógina….claro, tenho uma ponta de esperança, esses dias até doei minha camisa azul e amarela que há anos não me cabe mais.

Bruna Monique

Incrível adoro seus textos, trabalhos, presença, parceria e tudo mais… Você é uma mulher incrível generosa extremamente inteligente eu aprendo muito com você obrigada por acreditar e confiar em mim no meu trabalho a soma é real esse é meu maior presente! s2 sou grato por ter vc na minga vida.

Lorena

Excelente reflexão Jéssica! Queria que todo mundo estivesse aberto a esse diálogo, mas acredito que quanto mais sacrifícios uma pessoa faz para atender as regras (do padrão de beleza, da régua médica, da tradicional família) mais ela se incomoda com a suposta rebeldia de quem existe fora da cartilha. Não conseguem nem chegar ao final desse texto com o coração aberto. Minha dica é: silencie os estímulos internos e tente descobrir sua própria voz. O tempo e esforço que você despreende sendo obediente pode te surpreender e ser bem melhor empregado.

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