PREFIRO MORRER DO QUE ENGORDAR NA QUARENTENA por Jéssica Balbino

“Eu prefiro morrer do que engordar”. Essa frase, lida assim, pode soar estranha. Mas não é. Ela faz parte da sua rotina e da minha. E eu posso provar: a ouvi, ao menos, 12.728 vezes, que é o número dos meus dias viva neste planeta.

É claro que esta é uma conta superficial, afinal, só durante os 36 dias que me encontro em quarentena em razão do novo coronavírus (Covid-19), essa expressão já me rodeou inúmeras vezes ao dia e de diferentes formas.

Vem ver:
“Muita gente se perguntando como vamos sair do outro lado do túnel. Se mais cordiais, gentis, amáveis, ainda mais humanizadas e empáticas. De mim, só uma certeza:  se sobreviver, vou sair gorda, roliça feito uma leitoa”.

Te parece familiar? Você já ‘esbarrou’ com algo assim por aí? Talvez já até tenha dito algo assim, não é mesmo? 

Aham. A gente sabe que não é na maldade. Que não foi sua intenção ofender ninguém. Você só está preocupada com a própria saúde. Não pode mais nem isso? Ah, pronto! Agora ter medo de engordar é ser gordofóbica?

Você não quer ser uma leitoa, mas isso significa ser preconceituosa? Que desumanizando o quê. Você não está desumanizando ninguém. Só tem medo de ficar entediada durante a quarentena, comer demais e acabar como aquela sua conhecida que fica postando fotos nas redes sociais sem medo.

Você prefere morrer do que ter uma barriga como aquela. É verdade. O quê? As pessoas tão assustadas? Mas como viver sendo uma porca? Não dá. É melhor ser atacada durante a pandemia do que sair na rua com essas dobrinhas que já estão aparecendo e você não tá conseguindo se controlar diante da panela de brigadeiro.

Será o fim. O FIM. O fim do mundo se essa pandemia acabar justo no verão e você não conseguir parar de comer até lá. E se você engordar ainda mais? Será que vão te julgar? Mas também, a academia está fechada. Como querem que você se mantenha? Essa quarentena também já deu. Já deu ter que ficar fechada, não dá nem pra ir na academia do prédio, pra ver aquele crush do crossfit, para desopilar subindo umas escadas. E não pode nem comer?

Às vezes você quer jogar tudo pro alto e ir correr. Sair sem máscara, porque além de ficar horrível com aquilo na cara, ainda não consegue respirar direito. Será que se você sair para correr um pouco, tem problema? Você é jovem, magra, (ah, tá bom, vai, nem tanto, agora que engordou 1.875 kg está gordinha, né) não tem problemas de saúde e vírus nenhum vai te afetar.

Você mesma ouviu na TV alguém dizer que é só uma gripezinha. Você pode sobreviver a uma gripe, mas jamais vai se perdoar se aquela calça que você ainda nem usou não tiver o caimento perfeito. Definitivamente, é melhor morrer do que ter que usar legging e camiseta. 

Analisando bem a situação, é verdade. Você prefere morrer do que ser tratada como aquela sua conhecida. Você nunca viu ela sair acompanhada de uma balada, mas também, pudera. Daquele tamanho. Hahahaha. Se você fosse homem, teria nojo. Não sabe, aliás, como alguém teve coragem de já beijá-la. Talvez ela morra agora, durante a pandemia. E vai ser um livramento. Deve ser horrível estar na pele dela. Além de flácida, ninguém olha, ninguém deseja, ninguém quer. Você até comenta ‘linda’ quando ela posta uma foto no instagram, mas acha mesmo uó. Como ela aguenta? você não aguentaria um dia. Por isso, já decidiu, vai pôr uma roupa fitness e vai correr. Vai ser bom.

Já pensou se você engorda tanto e, por azar, pega a doença? Não deve nem ter maca no hospital para pessoas gordas.

Sem falar que elas roubam o lugar das pessoas magras, que merecem mais ser salvas. As gordas já não servem para nada mesmo. Se morrerem, pelo menos, deixam mais espaço no mundo.

 

Por isso você está tão preocupada. Mas não é preconceito. Você não tem nada contra. Mas acha o cúmulo do absurdo você se esforçar tanto para ser magra e eles lá, largados, comendo, fingindo felicidade e querendo ter os mesmos direitos. Aí não dá, né.

E é por isso, para não ser como eles que você vai se esforçar. Chega de quarentena. Você não conhece ninguém que tenha morrido com a doença, ouviu dizer que foi criada em laboratório e que só atinge idosos e pessoas do grupo de risco. Você não é nem uma coisa, nem outra, mas, se continuar noiada em casa, sem mexer o corpo, vai acabar obesa e aí, aumenta o risco. É isso. O segredo para não morrer é se exercitar. Assim, mesmo que a tristeza bata, você vai poder comer seu chocolate sem culpa, afinal, terá corrido e se esforçado o suficiente para isso.

Você espera sair dessa melhor. Mais sarada. Mais desejada. E vai conseguir. Mas, se for pra engordar, é melhor nem sair. Você não queria admitir, mas diante dessa reflexão, é necessário, você prefere morrer do que ser gorda.

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Essa personagem te parece real? Te lembra algumas amigas? Te faz se sentir mal consigo mesma? Te faz ter medo de ser como ela? ou de engordar?

É fato que a gordofobia não dá trégua nem mesmo durante a quarentena; Ela chega como vários memes que circulam nas redes sociais e WhatsApp sem qualquer pudor sobre o quão ofensivo isso pode ser às pessoas gordas que os recebem, sobretudo em grupos, em que obriga-se um silenciamento diante do riso sobre corpos iguais ao seu sendo tratados como aberrações e, sempre seguidos da frase: melhor morrer.

E, o que esperar de pessoas que subestimam a mortalidade de um vírus pandêmico e proclamam que preferem perder a vida do que ganhar alguns quilos e se tornarem igual ao que mais as assombra: um corpo gordo como o seu.

 

As mesmas piadas prontas - e agora ilustradas com imagens - sobre engordar na ceia de Natal e Ano Novo são repetidas há quase 40 dias Brasil afora, numa tentativa de culpabilizar pessoas gordas por existirem.

A desumanização é imensa. E a consciência de que as pessoas preferem morrer a ter um corpo como o seu é aterradora.

Enfrentar uma pandemia já é exaustivo demais para ter que se preocupar com memes e piadas, mas, ignorá-los também é quase impossível. Eles chegam em nossas casas furando os bloqueios do isolamento social. E dói receber cada um deles.

Não só por ser gorda, mas por saber que tratar distúrbios alimentares como piada é algo cruel demais, especialmente durante o enfrentamento de uma doença que é invisível. 

 

Então, se você é uma pessoa que envia estes memes e dá risada de cada um deles, vale pensar que a anorexia nervosa é uma das patologias mais graves dentre os transtornos alimentares e que possui a taxa mais alta de mortalidade entre todas as doenças mentais, conforme informam os estudos nas áreas de psiquiatria e nutrição.

Logo, alimentar estes distúrbios e promover o riso através da imagem corporal de outrem é, não só cruel, como desumano. E a gente concorda que já está todo mundo muito triste, com medo e desesperado com tudo que está acontecendo para ter que se preocupar com a os quilos a mais ou a menos. Se a gente puder se dar conforto, da forma que for, já será válido.

 

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Jéssica Balbino é o tipo de mulher elétrica, que mistura jornalismo, produção cultural e literatura com pimenta, cafeína, fósforo e gasolina.

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Ilustração da artista francesa Cécile Dormeau.

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