"Querida companheira" | Uma carta às calouras universitárias

Primeiramente, felicidades! Sabemos que foi uma luta e uma conquista enorme conseguir entrar na universidade. É fruto de muito estudo, esforço e quebra de barreiras para muitas que estão lendo, por isso você merece e estar orgulhosa da sua conquista, assim como nós também estamos.


BEM-VINDA!


Escrevemos esta carta pensando em todas as situações que passamos, porque, assim como você, nós também nos deparamos com a nova aventura que é entrar na universidade. Para nós é difícil ter que falar estas coisas, alertá-las porque ninguém deveria se precaver para não vivenciar situações vexatórias, de assédio e outras violências, mas enquanto vivermos numa sociedade machista como a nossa, teremos que falar.


Muitas de nós saímos de casa e nos deparamos em uma cidade nova, ou até um país novo, com pessoas diferentes, em lugares diferentes; tendo a necessidade de nos adaptar em uma nova dinâmica sendo algumas jovens e inexperientes, por isso queremos te aconselhar com carinho e esperamos que nos escute.
E sim, de fato a universidade é um espaço de construção de conhecimentos, assim como nossa própria construção como pessoas. Mas temos que ter em conta que é reflexo de nossa sociedade, ou seja, igualmente nos encontramos com uma realidade que nos violenta e culpabiliza de várias formas.


Você, assim como nós, vai se deparar vivendo uma liberdade que algumas nunca experimentaram. Você será convidada para muitas festas, com muita bebida e coisas mais. Esses lugares estão repletos de garotos, e muitos deles não estarão ali só para beber e conversar. Queremos que fique atenta, e por favor, não se deixe levar pelo momento e pela pressão. Não beba mais do que seu corpo pode suportar. Não aceite ir a uma casa, apartamento ou república com desconhecidos ou com pessoas nas quais não confia, por mais que pareçam interessantes. Dê prioridade ao rolê com as minas, principalmente no início. Também tome cuidado com quem convidar para seu espaço, as pessoas podem agir de forma inadequada.


Companheira, não pense que deve agradar a todos, só faça o que te deixar plenamente confortável. Não beba se não quiser, não beije aquela pessoa que flertar com você se você não quiser, não faça nada que realmente não queira. Você não precisa ser quem não é para ser aceita em algum grupo, todes devemos respeitades, e nesse processo, impor limites também essencial. Não se sinta mal por isso.


Mas, se você se deparar com uma pessoa interessante, você pode aproveitar. Só pedimos que tome cuidado, cerque-se de colegas que confie e deixe avisado aos locais que vai, quando não for possível sair acompanhada. Cuidem-se umas às outras, não vá sozinha a espaços que não conhece, tome precauções. E se em algum momento se sentir incomodada, vá embora.


Estes conselhos não se aplicam somente para festas, bares ou confraternizações. São conselhos para toda a sua estadia na universidade, referente a qualquer um que você possa conhecer por aqui, dentro ou fora do campus.


Outro conselho que nos permitimos te dar é que se aproxime dos coletivos que existem na universidade.

Foi o que fortaleceu muitas de nós, e nos ajudou a compreender que essa sensação de desconforto com atitudes alheias que invadem nosso espaço é violência também e não é que estamos deslocadas e muito menos temos que nos acostumar. Assim, dentro das coletividades é possível encontrar respaldo emocional com algumas pessoas do meio, que uma hora sempre acaba sendo necessário.


Muitas vezes é difícil nos acostumar a essa nova vida universitária, estar longe de nossas amizades, de toda uma vida e também daquelas pessoas que sempre velaram por nós. Mas não tenha dúvida que aqui vai encontrar companheiras que vão te fortalecer como pessoa, e que muitas delas serão amigas que você vai levar pro resto da vida. Participe de projetos que existem na universidade e nos ajude a construir outros espaços, a pensar em outras possibilidades. A construção é coletiva, e sua presença é fundamental, a vida não se resume somente as matérias da faculdade se tiver tempo de participar em outros espaços.


Companheira, infelizmente, a universidade tem históricos de todos os tipos de violência, e é por esse motivo que nasceram muitas coletividades feministas, negras, LGBTQIA+ e demais outras frentes de luta nasceram.

Lamentavelmente as coisas não vêm de cima, e somos nós quem temos batalhado para tentar mudar essas estruturas limitadas e fajutas que não nos escuta e não dá valor a nossas necessidades.


E queremos deixar um recado pra você companheiro que está lendo também. Esperemos que consigas entender muitas coisas que foram naturalizadas em nós e que consigas ser a melhor pessoa que puder ser e entenda que consentimento é fundamental para ter momentos saudáveis e um convívio com respeito. Então, quando alguém falar que não, temos que entender que isso significa um não rotundo e insistir configura violência, assédio, por isso, preste atenção. Ademais, se você presenciar alguma situação ou ouvir comentários sexistas, machistas ou de qualquer tipo que seja discriminatório fale, não seja omisso, não compactue. Você não sabe a diferença que pode fazer na vida de muitas pessoas!


E pra vocês companheiras, nossos braços estão abertos para conhecê-las, recebê-las e abraçá-las.


Com carinho,
suas companheiras veteranas.

 

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Texto escrito pela coletiva feminista Marti Vive! da Universidade Federal da Integração Latino-Americana. 

Ilustração Alesia Lund Paz.

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