"Tirem o racismo do feminismo: mulheres negras vão passar" por Joice Berth

Muito tem se falado sobre a projeção e a notoriedade que ações do feminismo negro tem alcançado nesses últimos anos. Um dos principais destaques da Primavera Feminista foi a atuação em grande escala das mulheres negras, mostrando para a sociedade que existimos, que somos bonitas, articuladas, inteligentes e unidas (para surpresa do patriarcado racista que tudo faz para que essa união não seja possível). Nossas pautas são amplas, urgentes, emergenciais e estamos com elas na ponta da língua, resultado de inúmeros encontros e discussões que permeiam nosso meio pelos quatro cantos do Brasil. A marcha das mulheres negras, que ocorreu na última semana, selou de vez a atuação política e social que tem sido sistematicamente apagada.

Marcha 8 M Curitiba - Giorgia Prates
Mas ainda temos muito o que conquistar – temos tudo a conquistar, eu diria -, porque os espaços não se abriram e nem se dispõem a abrir de maneira satisfatória. Como disse o geógrafo Milton Santos, em 1997, em entrevista ao Programa Roda Viva: “O Brasil não dá sinais de abertura ao debate racial”.

Poucos são os setores da sociedade que se propõe a discutir e acatar nossas demandas. Na grande maioria, elas são recebidas com deboche e descaso. O nosso apagamento enquanto ser político é explícito.

Nosso histórico de desvalorização social e coisificação dupla, como mulheres e como negras, ainda está livremente nos oprimindo por toda a América. Todos os dias. Cláudias morrem nas mãos do Estado genocida e ninguém troca avatar em rede social ou presta solidariedade às famílias das vítimas. Continuamos com os menores salários, amplamente aceitas em subempregos e excluídas das atividades intelectualizadas, estamos morrendo mais e desfrutando da solidão afetiva que algumas nem ousam discutir e as que ousam são duramente atacadas, e, ainda, somos sexualmente descartáveis e fetichizadas. Na mídia, continuamos estereotipadas. Na saúde, somos também excluídas das discussões que resultam em políticas públicas que nos beneficiem.

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E quem é por nós, se o feminismo branco está mais ocupado em cunhar o significado libertário do batom vermelho, pouco se importando se ainda temos mulheres que nem possuem dinheiro para ter um batom? Se, o feminismo prioritariamente branco, continua se valendo da porção racista do patriarcado para garantir seus privilégios burgueses? Se, o feminismo branco, ou abraça o discurso inverossímil da esquerda que teima em dizer que nosso problema é única e exclusivamente de classe (ignorando a informação racial intrínseca ao conceito) ou abraça o discurso liberal de que somos todos humanos (nesse caso somos todas mulheres)? E, por fim, se o feminismo branco, se vale disfarçadamente do conceito de meritocracia, afirmando que qualquer mobilização mais incisiva vinda de mulheres que não enxergam suas demandas sendo contempladas está segregando o movimento feminista?

Mulheres, tecnicamente, não tem poder de opressão, pois o machismo atinge a todas. Mas, ainda assim, mulheres brancas tem um braço forte à serviço da manutenção de suas poucas, porém significativas vantagens: o racismo. E, enquanto ser amparado pelo racismo estrutural e estruturante de todas as funções político-sociais, mulheres brancas oprimem sim. É só observar as relações de trabalho doméstico, os resquícios escravagistas estão ali e o racismo é que abre essa possibilidade. Quando o contingente de trabalhadoras domésticas for composto por mulheres brancas, caucasianas e europeizadas, essas relações vão mudar, não tenha dúvidas.

O feminismo que acusa mulheres negras de segregacionismo, na verdade, já segmentou a luta faz muito tempo. Amparado pelo conceito cínico de mulher como ser universal, reduziu a luta às suas próprias necessidades, desconsiderando as variantes que criam as diversas vivências femininas e as carências abertas pela chaga da exploração usada pela supremacia masculina.

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As acusações de segregação que o feminismo negro vem angariando por parte dos setores mais alienados do feminismo não procede, e pode ser interpretado como uma expressão tipicamente racista de desqualificação da presença da mulher negra na esfera política.

Contudo, já houve um hiato significativo na história do feminismo, aguardando a atitude das pós-sufragistas que saíram vitoriosas nas suas batalhas, onde as coadjuvantes negras tiveram uma participação indispensável. E, nesse período, apenas um silêncio absoluto foi obtido como resposta, obrigando as mulheres negras e as outras representações femininas a traçarem seus próprios planos de ação na luta pela sua sobrevivência. Sobrevivemos. Mas queremos mais.

Feministas devem saber, independente da vertente em que escolhem atuar, que estamos em luta social e coletiva. Essa luta social e coletiva é por autonomia ampla, geral e irrestrita. Pela posse de nossos corpos tidos pela supremacia masculina como públicos e alienáveis, pela nossa participação efetiva nos espaços sociais de decisão, como na política, por exemplo. Luta por segurança e garantia de direitos e, principalmente, por ações na sociedade de valorização de nossa presença enquanto ator fundamental na estrutura social. Luta por equidade e por condições de vida proporcionais às que homens desfrutam. Luta. Luta social.

Sabemos que o social tem uma mancha, uma sujidade que permeia as entranhas das nossas relações. Feministas também podem ser racistas. E são. Vimos isso nas diversas manifestações contrárias às críticas feitas sobre um texto de uma intelectual negra contemporânea, onde foi apontado a futilidade e a apropriação cultural por parte de uma famosa feminista branca. Enquanto discutem o significado do batom vermelho, mulheres negras são vítimas de feminicídio. Mulheres negras convivem com a violência doméstica e com o desemprego. Com desvalorização e baixos salários. Com assédio e apagamento nos espaços acadêmicos. E nada disso é abordado por feministas que alcançam um espaço midiático significativo. Sabemos que ninguém salva ninguém, nem o feminismo. Mas Sobreviventes, no sentido estrito da palavra, são as mães solteiras, as trans, as lésbicas, as negras, as periféricas, as indígenas. E não é a imagem delas em um videoclipe bonitinho que vai mudar a situação, e sim uma crítica eloquente e corajosa, expondo as necessidades que a vida dessas mulheres guarda e que não pode mais esperar. Em outras palavras, feministas brancas com projeção da mídia a seu favor devem ‘por a mão na cumbuca’ e trazer essas mulheres para a superfície social. Ana Tijoux faz isso, Luana Hansen também…

Nenhuma feminista branca que atacou a livre expressão de uma feminista negra parou para pensar e analisar com profundidade a crítica? Falou mais alto o espírito groupie de fã ensandecida e as ofensas foram tão pesadas que geraram uma carta aberta, absolutamente sem noção da realidade reafirmando a necessidade de se discutir o racismo dentro do feminismo. Nenhuma feminista branca considerou a hipótese de abrir um diálogo franco e responsável sobre os caminhos que o feminismo precisa seguir? Feministas brancas elegem um símbolo feminista falho e em dúbia desconstrução, mas desprezam educadamente o legado de Lélia Gonzáles e sua atuação na propagação do feminismo brasileiro. Ninguém lê Sueli Carneiro em terras tupiniquins. Muitas reconhecem Djamila Ribeiro, mas poucas são aquelas que se dão o trabalho de saber quem ela é, não discutem suas palavras, sua produção acadêmica e não saberiam dizer a importância que ela tem para nós mulheres negras. Se essas feministas fossem brancas, seriam mais valorizadas? Talvez sim, talvez não. Pouco se fala em Margareth Rago, e Marcia Tiburi é mais conhecida pelo que sabe sobre Nietzsche (homem branco) do que pela sua atuação como articuladora feminista. Isso aponta para uma necessidade de conteúdo acadêmico para as feministas brancas em geral. Afinal, estamos falando de luta político-social.

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O que quero dizer com essas citações é que o feminismo negro não se propõe a segregar. Muito pelo contrário. Fomos nós mulheres negras que abrimos o conceito de interseccionalidade dentro do feminismo. Enquanto Harriet Tubman é negligenciada na América do Norte, por aqui, quem se interessa por Tia Ciata, Luiza Mahin, Aqualtune e Dandara?

Olhando por esse lado, podemos mesmo afirmar que o feminismo negro é um movimento à parte? Evidente que essa afirmação é racista, e, se há algum resquício de separatismo, ele vem da mulher branca e de sua negligência e descaso para com a sua necessidade de desconstruir racismo e tratar o assunto como parte fundamental dentro do feminismo.

Somos o resultado desse processo de construção incompleta da luta feminista que nos deixou a deriva e surgimos agora como voz forte que foi sufocada por anos a fio, porque nossos passos vêm de longe.

É natural que estejamos no centro da luta. Chegará o momento do feminismo indígena, do transfeminismo, e podem acreditar que esse momento está debaixo de nossos narizes, ganhando força e empoderamento.

Sororidade, que tem sido muito citada e de maneira equivocada, é o respeito às vivências de cada uma e a empatia necessária para que nossas relações sejam justas e inclusivas. Se pararmos para pensar que, enquanto feministas brancas lutavam pelo direito ao voto e pelo direito de trabalhar fora sem autorização do marido, sendo que mulheres negras eram escravizadas e davam suporte para essas lutas individuais e que continuaram individuais ao longo da história do feminismo, chegamos à conclusão que é hora dessa mulher branca, elitizada, que alcançou alguma autonomia e reconhecimento social, se disponha a ser aliada em nossas individualidades, abrindo espaço, mostrando interesse, não se sentindo ameaçada com nosso protagonismo e muito menos tentando nos roubá-lo.

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Isso começa com a significância de nossas vozes dentro do círculo fechado do feminismo branco, abrindo espaço para a desconstrução do racismo para imediatamente garantir nosso reconhecimento como mulheres diferentes, não divergentes, aliada, fortalecidas e empoderadas.

O feminismo deve rejeitar duramente a sua condição atual de hospedeiro do racismo, sob pena de cair nas armadilhas da supremacia masculina e acabar como provedor feminino das perversidades do patriarcado. Cada vez que uma feminista branca age com truculência, negando seu próprio racismo e tentando silenciar mulheres negras e suas vivências, está atuando a favor da estrutura opressora em que vivemos e está, na verdade, trabalhando contra o feminismo enquanto luta social por autonomia real.

O dia que Audre Lorde tiver a mesma importância que Simone de Beauvoir, que Lélia Gonzáles tiver o reconhecimento equivalente ao que tem Clarice Falcão, e que se perceba que obter reconhecimento de uma não exclui o valor de outra, estaremos bem próximas do sonho da interseccionalidade sendo colocada em prática. Essa é a luta coletiva e lindamente construída pelo feminismo negro.

Joice Berth é Arquiteta e Urbanista pela Universidade Nove de Julho e Pós graduada em Direito Urbanístico pela PUC-MG. Feminista Interseccional Negra e integrante do Coletivo Imprensa Feminista.

Fotos da Marcha das mulheres no 8 de março de 2018. Belos cliques da fotógrafa Giorgia Prates. 
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Texto publicado na editoria Justificando da Carta Capital em 28 de novembro de 2015.

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