TODA MULHER É MEIO CLEONICE GONÇALVES por Denise Pimenta

Mães assassinas, filhas de Maria

Polícias femininas, nazijudias

Gatas gatunas, kengas no cio

Esposas drogadas, tadinhas, mal pagas


Toda mulher quer ser amada

Toda mulher quer ser feliz

Toda mulher se faz de coitada

Toda mulher é meio Leila Diniz


Garotas de Ipanema, minas de Minas

Loiras, morenas, messalinas

Santas sinistras, ministras malvadas

Imeldas, Evitas, Beneditas estupradas


Toda mulher quer ser amada

Toda mulher quer ser feliz

Toda mulher se faz de coitada

Toda mulher é meio Leila Diniz


Paquitas de paquete, Xuxas em crise

Macacas de auditório,velhas atrizes

Patroas babacas, empregadas mandonas

Madonnas na cama, Dianas corneadas


Toda mulher quer ser amada

Toda mulher quer ser feliz

Toda mulher se faz de coitada

Toda mulher é meio Leila Diniz


Socialites plebéias, rainhas decadentes

Manecas alcéias, enfermeiras doentes

Madrastas malditas, superhomem sapatas

Irmãs La Dulce beaidetificadas


Toda mulher quer ser amada

Toda mulher quer ser feliz

Toda mulher se faz de coitada

Toda mulher é meio Leila Diniz


- Todas as Mulheres do Mundo (1993), Rita Lee


Toda mulher no Brasil é meio Cleonice Gonçalves, tirando aquelas que não são: as patroas do Leblon, que mesmo sendo meio Leila Diniz, ainda assim são patroas do Leblon.


Em 1993, a cantora Rita Lee lançou a música “Todas as Mulheres do Mundo”, com um refrão que exaltava a potência de Leila Diniz. A atriz desafiou os costumes nos anos de 1960-1970, expôs sua barriga de grávida usando um biquíni (considerado pequeno para a época) no mar de Ipanema. Dizia: “Transo de manhã, de tarde e de noite”. Foi perseguida pela censura e pela repressão da Ditadura Brasileira, pois contestava e enfrentava as normas e a família (dita) tradicional brasileira. Apesar de não ter sido bem aceita por muitas feministas, em certo momento se tornou uma figura divulgada na mídia como contestadora do machismo, imagem da mulher libertária, livre e libertadora, o próprio símbolo da liberação feminina. A propósito de sua precoce morte em um acidente aéreo, no ano de 1972, disse o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade: “Sem discurso nem requerimento, Leila Diniz soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão”.


Infelizmente não soltou Cleonice Gonçalves dos resquícios da literal escravidão vivida no Brasil. Dona Cleo – como era chamada – trabalhava há vinte como empregada doméstica de uma família da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro.

Dormia quatro dias da semana na casa dos patrões, um comportamento de herança colonial e escravocrata, que o Brasil mantém ainda hoje, contando com uma arquitetura que desenvolve e constrói em casas e apartamentos: o quarto de empregada (nos fundos da casa e/ou colado à área de serviços do imóvel). Dona Cleo dormia quatro noites no Leblon, mas morreu em Miguel Pereira (Grande Rio de Janeiro), onde morava, com mais três familiares, em uma residência simples e pequena.


A diarista que tinha mais de 60 anos, ou seja, pessoa do grupo de risco da pandemia do novo Coronavírus, voltou ao trabalho assim que sua patroa chegou do passeio à Itália, viagem realizada durante carnaval de 2020, momento em que o vírus já se espalhava pelo país mediterrâneo. Chegando ao Brasil, a patroa não informou à Dona Cleo de que suspeitava estar infectada pelo vírus e muito menos de que este era contagioso, ou seja, não contou a empregada que esta poderia estar em uma situação de risco. Cleonice só foi liberada do trabalho quando começou a se sentir muito mal. Nunca mais dormiu “nos fundos” do Leblon, do hospital seguiu para o cemitério, em frente à sua casa em Miguel Pereira.


Certamente que no Brasil toda mulher deseja ser meio Leila Diniz, mas a maioria de nós é meio Cleonice Gonçalves. Mulheres que preenchem a função de empregada doméstica desde os 13 anos de idade, muitas vezes sem qualquer segurança trabalhista e que, mesmo cuidando de uma família que não é sua (a dos patrões), não recebe qualquer cuidado recíproco vindo da patroa, esta que talvez seja muito legal e generosa, quem sabe pode até ser uma feminista branca meio Leila Diniz. Talvez, eu também seja uma feminista branca meio Leila Diniz e, obviamente, que este breve texto não é contra a admirável atriz. 


Leila Diniz, que desconcertou os conservadores sendo uma mulher de vanguarda 

Na década de 1960, momento em que Leila Diniz confrontava autoridades da censura dos costumes, desenvolvia-se no mundo a Segunda Onda do Feminismo, esta que tinha as seguintes pautas: liberdade sexual, discussões sobre os direitos reprodutivos das mulheres, mercado de trabalho, além de outros temas importantes. Em 1960, enquanto o movimento feminista lutava pela inserção da mulher no mercado de trabalho, mulheres como Dona Cleo já trabalhavam há muito como empregadas domésticas de mulheres brancas e suas famílias. 


E o que isso tem que ver com a nova pandemia? As maiores afetadas (não necessariamente mortas) pela doença serão “Cleonices” e não “Leilas”, ou seja, mulheres pertencentes à base da pirâmide social, em sua maioria pretas e pardas, moradoras de regiões periféricas e chefes de família (arrimo de família), sem as quais, toda uma família pode se desestruturar.

O subemprego, emprego precário ou não regularizado acompanha a vida da maioria das mulheres do país, milhares de “Cleonices”. Muitas vezes, funções temporárias que correm o risco de serem cortadas sem qualquer remuneração durante o período da pandemia. 


“Cleonices” além de trabalharem fora, trabalham em casa, cuidando de sua família e de seus agregados.

Durante uma pandemia, o fardo do duplo trabalho e a possibilidade de contaminação deixam estas mulheres vivendo sob o signo do risco e do perigo, além disso, vivem em uma eterna sensação de medo de não perderem seu ganha-pão.

 

Com justiça, recentemente, filhas e filhos de empregadas domésticas começaram, através de uma conta no Instagram @pelavidadenossasmaes, uma campanha e abaixo-assinado pela dispensa remunerada de suas mães, “Quarentena Remunerada Já Para Domésticas e Diaristas!”Essa mobilização começou após a morte de Dona Cleo. 


Este texto, que agora finalizo, sei muito bem que toca em feridas delicadas e embates entre o Feminismo Branco e o Feminismo Negro, tudo subentendido, mas que todas por aqui podem entender. Espero também que se compreenda: não é nada contra as “Leilas”, é apenas a favor das “Cleonices” e suas vidas, que importam!   

 

 

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Denise Pimenta (pimenta@usp.br) é doutora em Antropologia Social pela USP. Fez trabalho de campo na Serra Leoa (África do Oeste) e defendeu, em 2019, a tese intitulada “O cuidado perigoso: tramas de afeto e risco na Serra Leoa (A epidemia do ebola contada pelas mulheres, vivas e mortas)”. Pesquisa que contou com bolsa de estudo da CAPES e teve a orientação do prof. Dr. John Cowart Dawsey (USP) e supervisão de Aisha Fofana Ibrahim (Fourah-Bay College/University of Sierra Leone).

 

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