ilustração de uma mulher branca, com cabelos escuros, presos em dois coques, usando muleta, calcinha e sutiã preto de costas para o espelho. O fundo é marrom terra.

A HISTÓRIA DO CORPO E DA MULHER COM DEFICIÊNCIA por Carol Constantino

ilustração de uma mulher branca, com cabelos escuros, presos em dois coques, usando muleta, calcinha e sutiã preto de costas para o espelho. O fundo é marrom terra.

"Ter conhecido o feminismo e ter entrado em contato com as discussões sobre deficiência foi fundamental, aos poucos fui compreendendo que toda opressão sobre mim não é algo individual, mas vem de uma construção histórica, coletiva e social, a qual busca, a todo momento, desvalidar meu corpo e desvalidar minha existência enquanto mulher."

 

Em grande parte da minha vida, pensei que muitos dos preconceitos que me afetaram aconteciam comigo só pela minha deficiência. Foram anos de angústia, evitando o espelho e culpando meu corpo. 

Através do Feminismo tive meu primeiro contato sobre a questão da corponormatividade que, realmente,  trouxe alguns esclarecimentos, mas mesmo assim não explicava tudo, continuava sentindo falta de algo, como se “as contas não fechassem”. 

De fato, meu corpo sempre esteve fora dos padrões e, principalmente, fora do esperado de um corpo feminino. Ou seja, ao mesmo tempo em que meu corpo sempre foi visto como “inválido”, ele também não é visto como um corpo atraente e muito menos como um corpo de mulher… e por que isso acontece? A história da deficiência foi o que me trouxe essas respostas. 

Para começar, é importante dizer que o culto ao “corpo perfeito” vem desde a época dos gregos, os quais consideravam a condição física como algo essencial pois viviam guerreando. As mulheres também passavam por treinamentos para fortalecer seus corpos e assim terem condições de gerar filhos fortes e sadios. Logo, se alguma criança nascesse “disforme”, era abandonada ou morta, e se alguma mulher adquirisse deficiência em determinado momento de sua vida, perdia totalmente seu valor pois acreditavam que ela não seria saudável suficiente para gerar filhos sadios.

Dando um grande salto até o século XIX, podemos dizer que a Revolução Industrial reforçou essa busca pelo “corpo ideal”. Porém, desta vez, o objetivo de se ter o corpo “perfeito” não era para ir à guerra, mas para produzir, trabalhar e gerar lucro! No entanto, no início da Revolução Industrial a mulher não podia trabalhar e sua principal função era ter filhos saudáveis para suprir a necessidade de mão de obra para o trabalho. Mais tarde, depois de muitas lutas, finalmente as mulheres puderam entrar no mercado de trabalho. Mas, como as mulheres com deficiência eram vistas naquela época?

As crianças que nasciam com deficiência não eram mortas como na Grécia, mas os pais (principalmente as mães) se sentiam culpados, fracassados e envergonhados por terem gerado filhos "defeituosos", fazendo com que muitas famílias os escondessem dentro de casa. Já os adultos com deficiência, por não encontrarem condições para trabalhar, eram totalmente excluídos, considerados inválidos e sem valor para o trabalho. Com isso, as mulheres com deficiência não só eram vistas como inválidas, como também incapazes de terem filhos e de cuidar dos afazeres do lar, da família, bem como todas outras atribuições impostas às mulheres.

Percebe como esses estereótipos estão presentes na nossa sociedade ainda hoje? Lá no fundo, ou nem tão fundo assim, as pessoas ainda acreditam que nossos corpos são inválidos, doentes, incapazes de atrair ou satisfazer sexualmente os homens. E as próprias mulheres com deficiência acabam interiorizando esses preconceitos e passam a não se reconhecer enquanto mulheres por não performarem o padrão da feminilidade.

Por anos nutri todos esses pensamentos dentro de mim e com isso, como disse lá no início da nossa conversa, eu acabava culpando meu corpo por realmente não conseguir lavar uma louça, por realmente não conseguir cozinhar, por realmente não ter um “corpo perfeito”, atributos que a sociedade patriarcal define como fundamentais de uma “mulher”.

Ter conhecido o feminismo e ter entrado em contato com as discussões sobre deficiência foi fundamental, aos poucos fui compreendendo que toda opressão sobre mim não é algo individual, mas vem de uma construção histórica, coletiva e social, a qual busca, a todo momento, desvalidar meu corpo e desvalidar minha existência enquanto mulher. Quando finalmente entendi tudo isso fiquei aliviada, mas continuava sem me olhar no espelho.

 Sabe aquela história do “ame seus corpos”? Pois é, não rolou e me senti muito culpada por isso. Como pode eu, uma feminista, ter todo entendimento necessário e continuar eu mesma rejeitando meu corpo? Quando que vou ter coragem de tirar uma foto nua? O que preciso fazer para conseguir me entregar em relacionamentos sem vergonha de me despir? Eu não sei, porque não encontrei essa resposta ainda. 

Muita gente reproduz o discurso de que se sentem livres ao amar seus corpos, mas ninguém fala o quanto esse processo é doloroso. Quando me dei conta que toda a discriminação do meu corpo vem dessa gigantesca cultura normativa, me senti pequena e impotente para lutar contra ela. Mesmo quando persisti e decidi buscar outras mulheres que abordam isso, nunca encontrei alguém que falasse dos corpos que vivenciam a deficiência. E quando eu toco no assunto, todas se calam, se assustam, não tentam manter um diálogo,  sinto que maioria (não todas) tem medo de se associar a deficiência porque elas simplesmente me olham enquanto falo, nem sei se realmente me escutando e, com isso, me calo novamente.

Queria tanto poder falar da minha vivência com qualquer um e não só com outras mulheres com deficiência, queria tanto conversar sobre meu corpo sem assustar ninguém, queria tanto que enxergassem minha existência como a existência de uma mulher, queria tanto que entendessem que meu corpo, e os corpos das outras mulheres, não é doente, não é falho, é só mais um corpo diverso. 

É difícil, mas ter esta oportunidade de conversar com você tem me fortalecido. O que tem me ajudado também é a paciência e carinho comigo mesma. Com a paciência eu consigo não me cobrar tanto e entender que cada uma tem seu próprio tempo.

Com o carinho eu tento sempre reverter a minha crítica em admiração, por exemplo: ao invés de repudiar meu corpo torto, eu digo a mim mesma que ele é assim porque se moldou de acordo com minhas demandas, se adaptou para eu continuar fazendo minhas atividades do dia a dia. 

Se acho ruim ter as pernas finas, logo olho para minha tatuagem da Frida e lembro que ela também não gostava das pernas dela e assim não me sinto tão sozinha. Se olho para minhas mãos atrofiadas, lembro a mim mesma dos inúmeros textos que escrevi, que me trouxeram um certo conforto e companhia, inclusive este que você está lendo.

Penso que este é o segredo: entender todo o processo de discriminação, mas, principalmente, cultivarmos o afeto! Para isso, precisamos unir todas nossas forças para construirmos uma cultura de paciência, carinho e amor a nós mesmas e para as outras pessoas que certamente estão passando por algo semelhante.  

 

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Foto da Carol, mulher branca, com cabelos compridos, lisos, avermelhados, presos com um lenço preto. Está usando uma peita preta com a frase corra como uma garota em branco, calça e tênis também pretos e um casaco amarelo. Está sentada em uma cadeira de rodas.

Carolini Constantino é assistente social, pesquisadora, feminista e mulher com deficiência. É coordenadora de projetos no Coletivo Feminista Helen Keller de Mulheres com Deficiência.

ilustração colorida de uma mulher negra, de cabelos enrolados, avermelhados, médios, com blusa de alcinha preta e tatuagem no braço.
Paloma Santos
é ilustradora, cadeirante e feminista. "No meu trabalho como ilustradora tento representar a diversidade feminina".

 

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peita.me
@putapeita
/putapeita

2 comentários


  • Carol, que lindo as suas reflexões! E tens razão, qdo fala sobre o amor, perdão, paciência e a caridade para conosco. Que bom que tem essa compreensão. Primeiro amar a nós mesmo, sem cobranças e exigências pq não importa se vc tem um corpo perfeito ou não o que realmente importa é o que fazemos nessa existência. Pois a nossa casa comum é uma escola e estamos aqui para aprender, crescer e caminhar uns com os outros. Os seres humanos são cruéis, e pq a humanidade é cruel? Pq ainda não entenderam que o caminho é o amor, paciência e caridade. Qdo a humanidade entender isso não haverá mais diferenças e discriminações. Sinto e reconheço os questionamentos pq tbém venho de dias duas e duas dias de luta e conquistas por ser mulher, negra e deficiente. Briguei mto por não ter esse entendimento, mas qdo entendi que o ódio, a raiva, preconceito não eram meus. Qdo entendi deixei de sofrer por falta de compreensão e entendimento do ser humano. Amei suas reflexões!
    Abracos querida!😚😚😚😚

    Mara Alencastro em

  • Excelente reflexão Carolini! A mulher é agente de transformação social, independentemente dos estereótipos sociais e culturais que nossa sociedade legitima. Teu texto é um grito de liberdade e posicionamento político.

    Gustavo Roese Sanfelice em

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