"Como manter a saúde mental sendo pessoa com deficiência" por Carol Constantino

Já dizia o poeta: "A vida nem sempre é um mar de rosas", prova disto é este momento político tão delicado que estamos vivendo, em virtude do qual tantas pessoas estão desgastadas e com medo do que ainda vem pela frente. Como se isso já não fosse o suficiente, precisamos lidar com nossos conflitos internos e ainda enfrentar as velhas batalhas impostas pela sociedade.

Dia após dia as mulheres enfrentam o machismo, e, ainda, toda uma sobreposição de opressões, como no caso das mulheres negras, para as quais se soma a luta contra o racismo, e, para nós, as mulheres com deficiência, a luta contra o capacitismo.

Uma pessoa mentalmente saudável tem qualidade de vida e um bom desenvolvimento emocional, que possibilita a ela superar as diversas dificuldades da melhor maneira possível e manter pensamentos positivos em relação a si e ao mundo.

Com as mulheres com deficiência isso não é diferente, porém, muitas acabam tendo uma saúde mental abalada por não encontrar semelhanças de seus conflitos com os conflitos de outras mulheres. Até mesmo quando procuram ajuda de profissionais, elas se sentem incompreendidas, e, de fato, são, pois, poucas pessoas realmente se preocupam em entender o que cada uma delas passa.

Nesse cenário todo, como manter, e ajudar a manter, a saúde mental da mulher com deficiência? Falando sobre ela!

A realidade das Mulheres com Deficiência
O capacitismo é nome dado a uma das formas de manifestação do preconceito social contra as pessoas com deficiência e está relacionado ao constante julgamento que a sociedade faz sobre a capacidade destas pessoas em serem ou fazerem algo.

Diariamente as mulheres com deficiência escutam perguntas como: "Como você conseguiu engravidar?", "como você conseguiu um(a) companheiro(a) tão bonito(a)?", "como você consegue criar seu(sua) filho(a)? Quem te ajuda?". Percebe que ao mesmo tempo que estas perguntas soam capacitistas, também são machistas?

As mulheres com deficiência são duplamente vulneráveis e discriminadas, além de possuírem alguma deficiência que as tornam alvos do capacitismo, também são mulheres, o que as fazem vítimas do machismo. Ao mesmo tempo, existem muitos casos de mulheres com deficiência que são também negras e vivenciam, concomitantemente, o racismo. Esses são algumas das sobreposições possíveis das discriminações que recaem sobre as pessoas com deficiência, criando situações de discriminação múltipla ou agravada.

Os padrões de beleza também pesam sobre as mulheres com deficiência, a auto cobrança por corpos "perfeitos" acaba sendo tão grande que elas evitam ao máximo olhar para si mesmas, pois não reconhecem corpos iguais aos delas.

Essa cobrança não vem apenas de nós mesmas, mas também pelas outras pessoas. Lembro de estar participando de uma conversa na qual uma cadeirante afirmou que se recusava a ser fotografada de corpo inteiro por “odiar" sua barriga - praticamente toda pessoa cadeirante tem sobrepeso por ficar sentada, é comum. Um profissional de psicologia estava presente e fiquei confiante que ele fosse falar algo positivo, mas sabe o que ele disse? "Fulana, quem sabe você tenta fazer uma dieta, eu posso te passar a minha. Perde a barriga rapidinho..."

Acredito que estas imposições e discriminações vivenciadas por estas mulheres se dão da forma mais velada de todas e, o pior, estão longe de ser desconstruídas, pois há poucos lugares que discutem o tema e falta a participação das mulheres com deficiência no universo feminista.

Sabemos que todo mundo passa por alguns sofrimentos em certas fases da vida, mas não temos como desconsiderar o fato de que esta sociedade machista, capacitista e racista (para apontar algumas formas de discriminação) em que vivemos proporciona o adoecimento mental das mulheres com deficiência.

É de extrema importância reconhecer e legitimar estas vivências e perceber a necessidade de cuidar e contribuir para uma boa saúde mental para todas nós!

Para fechar, ficam algumas dicas de como manter a saúde mental em dia:

- Mantenha sentimentos positivos consigo, com as outras pessoas e com a vida;

- Aceite-se e às outras pessoas com suas qualidades e limitações;

- Evite consumo de álcool, cigarro e outras drogas;

- Não use medicamentos sem prescrição médica;

- Pratique sexo seguro;

- Reserve tempo em sua vida para o lazer, a convivência com amigas e amigos e com a família;

- Mantenha bons hábitos alimentares, durma bem e pratique atividades físicas regularmente.

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Carol Constantino é estudante de Serviço Social, blogueira e cadeirante desde pequena, pois nasceu com atrofia muscular. Em seu blog ela compartilha tudo que diz respeito aos cadeirantes e outras deficiências. Além de postar também, histórias de outros cadeirantes do Brasil inteiro. Siga no INSTAGRAM , curta sua página no FACEBOOK e acesse o BLOG.

Ilustração de Paloma Santos, estudante de licenciatura, ilustradora, cadeirante e feminista. "No meu trabalho como ilustradora tento representar a diversidade feminina". Siga ela no INSTAGRAM e curta a página no FACEBOOK.

2 comentários

Sheila Rodrigues Motta

Me senti representada!

Taiane

Só li verdades sensacional!

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